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A renomada contadora de histórias Laura Simms disse que quando a antropóloga Frances Harwood perguntou a um ancião da tribo Sioux por que as pessoas contavam histórias, ele respondeu:  Para que se tornem seres humanos, e ela perguntou: “Mas nós já não somos todos seres humanos?  Ele sorriu e disse: Nem todo mundo chega lá.”

 

Uma artista do encontro

 

Antes de falar um pouco sobre a experiência profissional de propiciar experiências artísticas em ambientes não programados como o hospital ou nas ruas da cidade, vou contar o que é (para mim) ser uma artista do encontro.

É bem simples: o mais importante é o encontro!

 

É simples, mas não é exatamente fácil.

Para cada encontro costumo levar uma intenção; muitas estórias; roteiros de perguntas abertas; prontidão; abertura afetiva; objetos com eficácia poética e, principalmente, uma disposição interna para aceitar incondicionalmente seja lá o que acontecer nesse espaço do entre.

Por alguns segundos, antes de falar, eu fico próxima de uma ou algumas pessoas buscando em meus recursos o que de melhor eu tenho para oferecer para o cenário/atmosfera que vão aos poucos se revelando. E aqui temos algo importante: para saber o que oferecer é preciso de um pouco de silêncio e escuta absoluta, temos que respirar e ir desapegando de um tipo de poder, aquele que aparece quando temos certezas... é esse instante de silencio, conexão e entrega ao vazio que possibilita a confiança do outro e o encontro sincero.

 

Toda vez que me preparo para encontrar ascende uma curiosidade em minha presença, evidente, mas não evasiva; cuidadosa, mas que não se esconde, um pouco como quando estamos apaixonados por alguém. E isso, esse tipo de presença ascende/chama o que é vivo nas pessoas.

Interessante que a palavra curiosidade tem a mesma raiz da palavra cura (aprendi com meu amigo Claudio Thebas) e, não por acaso, todo trajeto de cura deve estar permeado de muita curiosidade pelo fio vermelho da vida de cada pessoa.

Pois bem, essa conversa é boa e longa....Se você se interessa por esse assunto, eu escrevi um artigo para o Observatório da Diversidade Cultural e conversei sobre essas interfaces arte X cidade X saúde com o pessoal do Cultura Faz Falta. Veja nos links abaixo:

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Fotos de Stela Handa para o trabalho de narração de histórias em hospitais junto à Associação Arte despertar.

Você já teve a chance de observar os profissionais da saúde atuando em uma UTI ou em um pronto socorro? Não como paciente ou acompanhante, estar lá como um observador mesmo... Guardo no peito uma sensação da primeira vez que fiquei observando esse contato ágil, diretivo, afetuoso, totalmente à serviço do outro. Naquele momento me perguntei: existe gente assim no mundo?  Desde 2012 eu tenho o privilégio de conviver com enfermeiros, profissionais da limpeza, psicólogos, fisioterapeutas e médicos e tantos outros profissionais que trabalham na linha de frente, bem na beira desse abismo vida-morte e entregam tudo, tudo mesmo que for possível. 

 

Existe gente assim! Gente que escolheu como profissão cuidar de um outro que está fragilmente exposto de corpo e alma.  São horas e horas de trabalho, muitas vezes em condições precárias – faltam materiais, medicamentos, descanso, apoio, segurança etc. 

 

Eu tenho um profundo respeito e admiração pelos profissionais da saúde e também pelo ser-humano que está ali sendo cuidado, entregue à impermanência radical da vida. Todos nós estamos, mas no hospital essa impermanência é vista, sentida, falada... tem nome, prontuário, indicadores, tem ali uma doença.

 

Uma outra pergunta me acompanha: como eu posso ser útil? O que eu posso fazer (ou não fazer) e que recursos disponho para melhorar a vida dessas pessoas? Partindo dessa intenção, outras perguntas: Qual é a peculiaridade e utilidade do trabalho do artista, principalmente do contador de histórias nesse ambiente de urgências?

 
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CONTAR A SUA PRÓPRIA HISTÓRIA

SEGURANDO O SEU FIO VERMELHO

Seja em um livro, um vídeo, ao vivo para um grupo de pessoas, remotamente, importa menos o suporte, o como contar e sim o fato de que cada pessoa tem uma maneira única de falar/escrever com uma voz que é sua, a partir de suas próprias experiências e imaginação.

 

Dar vazão à essa voz é um trabalho de imersão e de risco, é como caminhar por um bosque escuro e encontrar nele a segurança de um caminho que vai se apresentando por meio da escuta de um outro, um outro-guia que te ouve e te ajuda a contar sua história livre de impedimentos que confinem o seu potencial criativo. 

 

Podemos lhe ajuda a contar a sua história. Encontrar e segurar o fio vermelho dela, com imagens, ritmos e afetos orquestrados pelo que lhe faz sentido, oferecemos nossos olhos, ouvidos e coração para que as pessoas se vejam em sua essência e possam contar sua história com uma voz íntegra, justa e comovente.

 
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BOTICA DE HISTÓRIAS

 

O QUE É?

Uma Botica é um estabelecimento em que se preparam e vendem medicamentos.

Nesta ação performática e narrativa, ofereceremos aos participantes uma Botica de Histórias.

 

Pergunta disparadora: Onde dói? 

Aqui a ideia de remédio atua menos como dependência de uma substância química, mas como remediação - entrar em contato com uma conexão que foi obstruída/rompida por meio das histórias de tradição oral - um recurso auxiliador na busca de mediações perdidas no tempo.

 

COMO ACONTECE? 

Duas performers munidas de tabuleiro pendurado no pescoço cheio de frascos de várias cores e tamanhos + um músico multi-instrumentista percorrem um espaço oferecendo histórias (re)mediadoras de todos os males. 

Munidas de perguntas inusitadas e aparelhos de medição poética, os performers entrevistam os participantes e enfim escolhem um frasco que contém um desenho-título de história que depende da falta, da busca ou do mal que assombra o entrevistado. 

Abrimos o frasco e de dentro tiramos uma música e uma história sob medida para aquele encontro. 

Nos despedimos com um palito médico (de observar a garganta) onde estará gravado algum ditado popular como: “o que não tem remédio, remediado está”.

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