Por que o trabalho com histórias?

DO PONTO DE VISTA DA NEUROCIÊNCIA

 

“Sabemos que alguns grupos humanos não usaram a roda, mas não temos notícia de algum grupo humano que não contasse histórias. “Ursula K LeGuin

 

E por que as histórias são tão poderosas?

Porque a estrutura de uma história corresponde às demandas informativas do sistema neural que temos em nossas mentes: Nós pensamos no formato de histórias e estamos programados para compreender nós mesmos e o mundo como se fosse uma história. 

O célebre contador de histórias e pesquisador em neurociência Kendall Haven afirma que organizamos todo o nosso pensar em estruturas narrativas: compreendemos o mundo e a vida como uma grande história. E é justamente essa estrutura narrativa que nos oferece um sentido de ordem e de seleção das informações que chegam até nós de maneira aleatória.

 

Segundo Haven, temos uma parte específica do nosso cérebro que está no comando de receber informações e atribuir sentido à elas – o chamado ‘ninho neural de histórias” cuja principal função é “reter” o que importa, o que faz sentido. É justamente por isso que quando ouvimos uma história ela nos envolve, direciona nossa atenção e nos transporta para dentro e para fora de nós mesmos nos influenciando sem os impedimentos que informações aleatórias, baseadas em dados e fatos teriam, por exemplo. 

E se gostamos e ficamos curiosos com o que está sendo dito, se além do nosso pensar estivermos engajados afetivamente com a história é muito mais provável que não nos esqueçamos dela. Uma boa história chega como flecha no centro do alvo, chega como flecha em nosso coração. E o que a gente gosta, a gente lembra.

DO PONTO DE VISTA DO OUVINTE

por Mauricio Ayer, professor de literatura USP

A Cris me pediu um depoimento. Resolvi contar a meu modo o que aprendi vendo e ouvindo a Cris contar estórias, e olha que já vão aí mais de duas décadas de testemunho. Então, com o mestre Rosa, digo: quer ouvir esta estória? Siga-me! 

Quando a gente ouve uma narradora contar uma estória, é toda uma alquimia. A estória começa quando de repente a gente enxerga – uma princesa ou um sapo, um suntuoso castelo ou apenas uma pedra, um velho ou uma criança. De repente a gente vê – mas vê sem ver, porque o que vê com os olhos, de fato, é só a narradora. A gente vê porque os ouvidos recebem uma voz, e essa voz conduz palavras. Esse “de repente” é tipo uma explosãozinha, uma rachadura no concreto, acontece um descolamento e o mundo já não é um só, ele se desdobra. Só que não é o mundo ali diante dos nossos olhos que se desdobra, é a gente que, no esforço de dar lugar à estória que ouve, começa a mover mundos e fundos. Então aquela princesa que eu inventei para poder ver a estória é um pouco a menina de quem eu gostei muito tempo atrás, e o sapo que vem em seguida tem o olhar esperto de um cachorro que eu tive ou do camaleão que eu vi num filme... nessa hora, tudo é e não é, quer dizer, de repente – num irrepetível repente – é toda uma memória que se mobiliza para criar um mundo novo: uma memória do porvir, aqui e agora. Ouvir a estória é uma escolha, mas uma vez tocado pela estória, muito do que vem depois já está um tanto fora de controle. Como vou dar conta? É tudo ao mesmo tempo! Não é questão de quantidade, é o tempo que já não é o mesmo, um mesmo. Bom, deu pra entender que, mal comecei a ouvir a estória, e já está tudo em movimento, nada mais é o que era. Quer dizer, sou eu que já sou todo movente, sou eu que já não sou mais o que eu era. 

Que transfiguração é essa? Sinceramente, eu não sei dizer. Acho até que ela é bem imprevisível. Tenho pra mim que quando a gente ouve atentamente uma estória, a gente se converte em canteiro, e vai realizando em cada canto de si uns múltiplos trabalhos: afetivo, intelectual, relacional, ético... Essas forças que operam lá no fundo de nossos ossos, que mexem nas nossas moléculas, elas podem não ser totalmente conscientes, pode ser que não possamos controlá-las, mas elas são absolutamente nossas. Aliás, capaz que ao testemunhar o movimento delas nos tornemos um pouco mais o que a gente é, lá no fundo. Por isso elas são irresistíveis. Lembrei de uma coisa que eu nunca vivi, nem poderia, mas acho que é como a parturiente que deixa agirem as forças do parto, que são absolutamente suas mas das quais ela também é mais uma testemunha ativa do que uma controladora, para dar à luz o filho que dela se desdobra e também a si mesma outramente. Dá pra ouvir as colunas rachando, as pedrinhas caindo e se reacomodando, recompondo o que a gente é de um jeito mais sedimentado. É aí que – de repente! – pode acontecer que um desenho novo se faça, e aí a gente entende! Entende aquilo tudo. Pode acontecer tudo muito rápido, mas também pode levar dias, semanas, ou mesmo anos.

Lá no começo eu falei em alquimia. Porque no seu laboratório o mestre alquimista acredita que, ao destilar as substâncias para obter a quintessência, ele não está só operando uma transformação. A um só tempo, ele acredita que está aprimorando o mundo, trazendo-o para mais perto da divindade, e aprimorando também a si mesmo. Destilar uma estória é um jeito de aprimorar a Obra, aproximar-se dela, ocupar mais autenticamente o lugar que nos cabe neste mundo e, até por isso, o mundo se encaixa melhor também. Uma estória contada faz tudo fermentar (palavra cuja raiz é a mesma de “ferver”), os sentidos que estavam quietos, que são a matéria de nossa existência, se põem a borbulhar, o que estava parado é posto em atividade. Mas a alquimia se completa na destilação, que é o momento em que o alquimista vai procurar extrair o puro do impuro, tirar a essência – se possível a quintessência – da matéria bruta da vida e do mundo. Aí é: de repente!

Não sei contar quantas vezes ouvi a Cris contar estórias. Sei dizer que, enquanto escrevo, a narradora que vejo sem ver é a Cris. E algumas estórias que ela contou há anos seguem movendo minhas pedrinhas. Tem uma estória sufi, em especial, da qual eu me lembro sempre, que é a do Yunus. Não vou cometer a atrocidade de resumir aqui a estória. Um dia peçam para a Cris contá-la. Só digo que na estória tem o Yunus e seu mestre, uma montanha e uma canção que desce até um vale, e os habitantes do vale que recebem esse delicado orvalho de sons começam a cuidar do mundo para afiná-lo à canção, para que ele seja tão bonito e delicado a ponto de merecer a aterrissagem do voo daquela voz. 

Pois bem, essa história continua fermentando e destilando aqui dentro. Eu sou capaz de ver o canto do Yunus quase como uma névoa que vem do alto da montanha e vai se depositando no vale até desaparecer quando o sol está alto. Já me vi sendo Yunus, já me vi sendo o mestre dele, ou sendo as pessoas que moram no vale e ouvem a canção. Também já me vi sendo o próprio canto descendo a montanha e escorrendo vale adentro. Eu ouço agora (com outros ouvidos) o eco antigo da voz da Cris e de repente me vejo (com outros olhos) sendo alguma coisa outra que, claro, só pode ser eu mesmo. Por um momento, eu sou inteiro aquilo que eu vejo, como se estivesse diante de um espelho e aquela imagem inteira se impusesse a mim junto com essa sentença: “isso sou eu”. Mas essa imagem não veio pronta, ela me foi sugerida pelas palavras, que sempre podem nos levar a outros lugares inesperados. Então esse espelho inventado, múltiplo e proliferante, ao invés de me assegurar do que eu era, trata mesmo é de me deslocar, chacoalhar essas coisas que pareciam prontas e que estavam estagnadas, desaprisionar o movimento de me imaginar, de me ver outro. Se posso me ver nuvem ou canção, ou mestre ou vale ou sapo, por que não poderia, efetivamente, ser outro? E que outro eu poderia ser que não eu mesmo, só que mais encaixado, sacolejado, flexível? 

Pois é. A gente pode pensar sobre uma estória, refletir, elaborar conceitualmente, conversar sobre ela e fazê-la conversar com valores e modos de ler o mundo. Mas o que toda vez me espanta é esse primeiro movimento, que tem um pouco da criança que a gente nunca deixa de ser. É o espelho caleidoscópico que fermenta o ser e dá a ele a chance de se destilar. A estória, pela voz da narradora, co-move. 

Moral da (minha) estória: nunca perca a chance de ouvir a Cris contar uma estória, pode ser a sua hora e vez de tropeçar num sapo e cair em si